Pesquisar este blog

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Diogo Mainardi , o cuzão tambem quando o assunto é arte

Na semana passada, Diogo Mainardi chamou Vik Muniz de “Mister Miker do MoMA”. Para o Diogo, o sucesso de Vik seria um sintoma da baixa qualidade da arte brasileira:

Ele é o artista brasileiro mais festejado de todos os tempos. Ele está para a arte brasileira assim como Leonardo da Vinci está para a arte italiana. O que já diz tudo sobre a arte brasileira (…) Vik Muniz valorizou as técnicas mais desprezadas da história da arte: a cópia e o trompe-l’oeil. Primeiro, ele copia, fotografando. Em seguida, reconstrói a imagem colando sobre ela elementos de uso cotidiano, como molho de tomate, geleia de amora e soldadinhos de plástico, em forma de mosaico.

O comentário do Diogo é pobre e imbecil. Primeiro, porque sugere que a arte para ser boa tem que ser necessariamente não-popular. Embora seja preciso reconhecer que o populacho tem um péssimo gosto, não é regra: Vik Muniz é, justamente, uma exceção. Segundo, porque o Diogo vê o problema na técnica em si e não no modo como o artista a emprega. É mais ou menos como culpar um poeta por ter escolhido escrever uma ode ou um soneto, e não por fazer versos medíocres.

Vik Muniz é, de fato, o maior nome brasileiro das artes plásticas; conquistou o prestígio (e a popularidade) como nenhum outro tupiniquim. E, fora daqui, poucos se lembram que ele é brasileiro, o que é muito bom. Os comentários mais sensatos sobre sua arte estão no site da Bravo. Affonso Romano de Sant’Anna, que juntamente com o Gullar é dos mais interessantes comentaristas da arte contemporânea disse que Vik “realiza o reencontro do público com a arte. Isto é raríssimo hoje em dia. O que tem caracterizado certas mostras é aquilo que Jean Clair – crítico de arte de maior prestígio na França – chamava de “multidões sonâmbulas”. Ir a museu virou uma variante do turismo. Pessoas vagando entre obras que não entendem sem conseguir compatibilizar as bulas oferecidas com o produto exposto. (…) Vik Muniz consegue a empatia e a admiração do público e a atenção de críticos daquilo que [o sociólogo] Howard Becker chamava de arte oficialista”.

Mas é preciso reconhecer que Vik Muniz é um pouco maneirista. Quando fui à sua exposição no MAM-RJ em fevereiro, a mesma que chega ao MASP agora, tive a sensação de que a ideia era cansativa: na terceira obra, você para de prestar atenção no que ele fez, para se atentar ao como ele fez. O questionamento é sempre o mesmo, não importa se as imagens foram feitas com lixo ou com pasta de amendoim. Por isso, é impossível não concordar com Bruno Moreschi: “Se nos depararmos com um único trabalho seu numa coletiva com vários outros artistas, por exemplo, ele torna-se um artista genial. Se estivermos em uma individual, (…), ele torna-se um criador de técnicas surpreendentes, mas um tanto quanto repetitivo. Quando suas obras são apresentadas uma em seguida da outra, surge uma ressalva em sua carreira: a repetição. Há pelo menos 15 anos, Vik usa de uma mesma técnica (o uso de materiais não apropriados para o fazer artístico) para produzir obras que tratam sobre a mesma questão (a reprodução fidedigna de símbolos da cultura). Ver uma individual sua é constatar o quanto ele está escravo dessa técnica”.

Se o comentário de Diogo é imbecil por ter culpado o Muniz pela escolha de uma técnica, também cabe classificar de diluidor o artista que acha que a simples escolha de uma técnica incomum pode salvar sua arte. O chato em um poeta não é o fato dele escrever um soneto ou uma ode, como sugere Diogo Mainardi. Mas quando a ideia do texto é a simples realização do texto. O problema é quando ele não sabe fazer outra coisa. Vik Muniz é interessante, mas é também um diluidor: seu pensamento se resume a uma só ideia sobre o mundo. Ideia esta que já havia sido exposta há décadas por Duchamp – o que distingue a Monalisa de Vik da duchampiana, senão a técnica? O problema não é a pasta de amendoim, mas a forma como o artista se relaciona com ela. A arte de Vik dá um novo sentido a materiais que, à princípio, tem uma só função previsível na sociedade. Não seria o caso, também, de dar um novo sentido à sua arte para tirá-la do “já fiz isso antes”?

Nenhum comentário: